STRANGER IN A STRANGE LAND: O MISTÉRIO QUE INSPIROU ADRIAN SMITH
- Anderson Silveira
- há 5 dias
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Stranger in a Strange Land é o segundo single do disco Somewhere in Time, lançado pelo Iron Maiden em 1986. A letra foi composta por Adrian Smith.
Muitos pensam que a música foi inspirada no romance de mesmo nome de Robert A. Heinlein. Mas não foi.
Adrian Smith se inspirou em um dos grandes mistérios marítimos do século XIX — uma história que só começou a ser desvendada mais de 100 anos depois e que, mesmo hoje, ainda guarda muitos mistérios.
O ano é 1845. Naquela época, encontrar uma rota marítima mais curta entre o oceano Atlântico e o Pacífico era uma questão de enorme importância comercial. O Canal do Panamá, que permitiria uma ligação muito mais direta entre os dois oceanos, só seria inaugurado em 1914.
A busca pela chamada Passagem do Noroeste, uma rota através do Ártico canadense, continuava sendo um dos grandes desafios da exploração marítima.
Uma expedição comandada pelo explorador britânico Sir John Franklin foi encarregada de tentar encontrar essa passagem.
“Was many years ago that I left home and came this way”
A expedição era formada por dois dos navios mais modernos de sua época: o HMS Erebus e o HMS Terror.
A título de curiosidade, HMS significa His Majesty's Ship ou Her Majesty's Ship, dependendo do gênero do monarca britânico.
“Stranger in a strange landLand of ice and snow”
Os dois navios partiram da Inglaterra em maio de 1845, levando 129 homens.
Depois de avançarem pelo Ártico canadense, os navios ficaram presos no gelo na região do Estreito de Vitória, próximo à Ilha do Rei Guilherme.
O que deveria ser uma grande expedição de exploração transformou-se em uma luta desesperada pela sobrevivência.
“Trapped inside this prison, yeah!Lost and far from home”
Os navios permaneceram presos durante o inverno. Em 1847, Sir John Franklin morreu. Em abril de 1848, os sobreviventes abandonaram o Erebus e o Terror e tentaram alcançar o continente canadense por terra.
Nenhum dos 129 integrantes da expedição retornaria para casa.
“One hundred years have gone and men again they came that wayTo find the answer to the mystery”
Mais de um século depois, novas expedições começaram a investigar o destino dos homens de Franklin.
Em 1981, o antropólogo Owen Beattie, da Universidade de Alberta, iniciou uma série de pesquisas que ajudariam a revelar alguns dos segredos da expedição.
Na Ilha Beechey, foram localizadas as sepulturas de três tripulantes: John Torrington, John Hartnell e William Braine.
Os corpos, preservados pelo frio extremo do Ártico, estavam em condições impressionantes para alguém que havia morrido mais de um século antes.
“They found his body lying where it fell on that dayPreserved in time for all to see”
As pesquisas realizadas por Beattie e sua equipe encontraram evidências de doenças respiratórias, além de níveis elevados de chumbo nos tecidos e ossos dos mortos.
Durante muito tempo, uma das principais teorias foi a de que o envenenamento por chumbo teria ocorrido através das latas de alimentos utilizadas pela expedição, algumas delas supostamente mal soldadas.
“No brave new world, no brave new world”
A hipótese, porém, nunca foi totalmente consensual. Estudos posteriores questionaram se as latas eram realmente a principal fonte da exposição ao chumbo, e outras possibilidades também foram levantadas, incluindo o sistema de abastecimento e destilação de água instalado nos navios.
O que parece cada vez mais claro é que não houve uma única causa para a tragédia.
“What became of men that startedAll are gone and their souls departedLeft me here in this placeSo all alone”
A combinação de frio extremo, fome, doenças, escorbuto, pneumonia, tuberculose e provavelmente outros problemas de saúde contribuiu para o colapso da expedição. A exposição ao chumbo também pode ter desempenhado algum papel, embora sua importância exata ainda seja discutida pelos pesquisadores.
E existem evidências ainda mais perturbadoras.
Marcas de cortes encontradas em ossos humanos sugerem que alguns dos sobreviventes recorreram ao canibalismo, provavelmente em uma tentativa desesperada de sobreviver.
“Trapped inside this prison!”
É difícil imaginar a dimensão daquele sofrimento.
Se pesquisadores munidos de tecnologia moderna encontraram enormes dificuldades para investigar a região mais de um século depois, podemos apenas imaginar o que aqueles homens enfrentaram em 1845, isolados em uma das regiões mais hostis do planeta.
Mas o mistério ainda não havia terminado.
Já no século XXI, novas expedições utilizaram tecnologias modernas, incluindo sonar, além do conhecimento tradicional dos povos Inuit, para procurar os navios desaparecidos.
Em 2014, o HMS Erebus foi localizado no fundo do mar.
Dois anos depois, em 2016, foi a vez do HMS Terror ser encontrado.
“One hundred years have gone and men again they came that wayTo find the answer to the mystery”
Mais de 170 anos depois, os dois navios finalmente haviam sido encontrados.
Mas algumas perguntas permanecem.
O que exatamente aconteceu com cada um dos 129 homens?
Quais foram os últimos dias da expedição?
E quanto da história ainda está escondido sob o gelo do Ártico?
Talvez seja justamente essa combinação de aventura, isolamento, tragédia e mistério que tenha feito Adrian Smith transformar a história da expedição Franklin em uma das músicas mais interessantes de Somewhere in Time.
E talvez Stranger in a Strange Land seja, afinal, muito mais do que uma simples referência a um “estranho em uma terra estranha”.
Se você quiser conhecer mais sobre essa história, recomendo o livro Frozen in Time: The Fate of the Franklin Expedition, de Owen Beattie e John Geiger — publicado no Brasil como Congelados no Tempo.


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